Contos

Sabedoria

Esta história começa no Verão de 1994, quando o mundo se mostrava brilhante e colorido e todos tentavam desesperadamente ser felizes. Eu tinha sete anos e nós viajámos rumo à casa de campo de uns grandes amigos do meu pai.
O ar estava pesado e o nevoeiro tornava-se cada vez mais denso à medida que nos embrenhávamos por entre as árvores grossas. Eram exactamente 3 horas da tarde, disseram-me muitos anos depois, quando o pneu da viatura rebentou.
Eu não me lembro de nada, só do calor e da humidade pegajosa na pele e do grito. Um grito que ecoou durante vários minutos por entre a vegetação, até que tudo ficou negro e silencioso. Cresci sem saber ao certo o que tinha acontecido e a única recordação que tinha da minha mãe era um anel de ouro finíssimo, com uma pedra azul turquesa que trazia sempre ao pescoço.
Nunca mais lá voltei, sequer passara perto da mata escura, mas todos os dias, quando fechava os olhos, voltava a ouvir aquele grito agudo, a escuridão voltava a tomar o seu lugar na minha mente e no meu corpo. Até que chegou o dia em que não aguentava mais e tomei a minha decisão, tinha de lá voltar.
Acordei ainda o sol não tinha nascido e fiz a minha mala, tendo em conta todos os cenários, desde lanternas e material de escalada, até ao indispensável kit de primeiros socorros. Sentia-me quase ridícula com toda aquela preparação, mas mantinha-me ocupada, até abrir a oficina do Sr. Martins.
Às 9 horas, peguei na mochila bem recheada e dirigi-me finalmente até lá. Foi um empregado mal humorado que me atendeu.
– O Sr. Martins ainda não chegou.
A minha frustração foi maior do que seria necessário, mas controlei a minha expressão facial e disse-lhe simplesmente:
– Eu espero.
Sentei-me em cima de uns velhos pneus, que alguém pensou serem uma boa decoração e esperei durante 3 longos quartos de hora, até que finalmente, o Sr. Martins estacionou o seu Fiat Punto vermelho sangue na frente da entrada.
– Vera! Aqui tão cedo?
– Preciso de um carro.
Ele passou por mim, entrando na oficina, como se eu não tivesse dito nada.
– Pensei que tinhas dito que nunca irias conduzir. – disse, quando finamente se voltou na minha direcção. O seu olhar tentava ler no meu rosto, as minhas possíveis intenções.
– Mudei de ideias. Pode ou não arranjar-me um carro?
Ele fitou-me por cima dos óculos incrivelmente sujos.
– Bem, que tipo de carro é que queres?
Senti-me corar, eu não entendia nada de carros…
– Qualquer um.
Ele perscrutou-me com um olhar desconfiado e em seguida, fez-me sinal para que o seguisse. Na parte de trás da oficina, estava o que eu supunha ser um enorme ferro-velho. Caminhámos por entre os carros adormecidos, até que ele parou diante de um pequeno carro branco, com a porta amolgada.
– Bem, este é fácil para ti. E funciona na perfeição, apesar da porta.
Fitei-o, era muito pouco apelativo, mas eu precisava apenas de uma caixa com rodas e não do último modelo topo de gama.
– Não vai parar no meio do caminho?
– Tenho a certeza que não.
Voltei a olhar o pedaço de metal mal tratado.
– Então, eu fico com ele.
O Sr. Martins voltou a olhar-me com desconfiança.
– Tens a certeza?
– Tenho. – respondi, esticando-lhe as minhas economias. – Isto chega?
Ele avaliou o maço de notas e em seguida assentiu com a cabeça. Entregou-me a chave e eu esgueirei-me rapidamente para dentro do veículo. Durante uns segundos, ainda me observou, mas em seguida, encolheu os ombros e voltou a entrar na oficina.
Por dentro, o carro cheirava a mofo, os estofos tinham buracos de vários tamanhos e o rádio não funcionava. As janelas eram ainda de abertura manual. De facto, seria uma viagem no tempo. Respirei fundo e rodei a chave na ignição. Ligou à primeira tentativa.
– Pelo menos isso. – desabafei. Pus a marcha atrás e retirei o carro para a rua principal.
Conduzi durante horas, até finalmente começar a entrar no canavial que daria acesso à densa mata. Quando finalmente me vi por entre as árvores, respirei fundo e abrandei. O nervosismo que experimentara durante toda a viagem, estava agora prestes a tornar-se num verdadeiro ataque de pânico e eu não podia permitir que isso acontecesse.
O carro seguia lentamente por entre as sombras da floresta e os meus olhos perscrutavam cada movimento, cada restulhar de folhas no chão, cada pequeno animal que se movimentava por entre os arbustos. Ao fim de algumas horas, vi finalmente a casa em frente a mim.
Travei repentinamente e olhei-a com atenção. O aspecto exterior permanecia intacto, salvo algumas manchas escurecidas nas paredes anteriormente brancas. Voltei a pôr o carro em movimento, até parar no pátio da entrada.
Com o corpo a tremer, abandonei a viatura, deixando o motor ligado, o seu suave ronronar dava-me uma sensação agradável de presença. Aproximei-me da porta da entrada, teias de aranha cobriam a maçaneta e a fechadura. Eles não tinham lá voltado após o acidente. Não tinha vontade de pôr as mãos no meio das teias gigantescas, só de imaginar que os seus habitantes podiam ter a mesma proporção, pelo que voltei ao carro e peguei um pano velho. Enrolei-o na minha mão e tentei limpar os desagradáveis fios.
Quando dei por terminada a tarefa, libertei o pano da mão e com o pé empurrei-o para fora do pátio.
“Odeio aranhas.”, pensei, enquanto rodava a chave na fechadura. Não foi difícil abrir a porta. A casa tinha o característico cheiro de mofo de um espaço fechado e a escuridão dentro dela era completa. Liguei a lanterna do telemóvel, para tentar procurar o interruptor, no entanto, ao carregar nele, percebi que a luz não funcionava.
– Boa…
Voltei ao carro e peguei na minha lanterna de verdade, tinha de descobrir onde ficava a caixa dos fusíveis e tentar resolver o problema, antes de anoitecer. Dei uma olhadela à chave na ignição, devia desligar o carro, mas…
– Não sejas ridícula! – ordenei a mim mesma, retirando a chave e guardando-a no bolso do casaco.
Entrei novamente na grande sala de estar e procurei algo na parede que se parecesse, ainda que remotamente, com uma caixa de fusíveis. Nada. Vim ao exterior da casa. Nada. Suspirei, frustrada. E agora? Não ia ali ficar à luz das velas… Lembrei-me então, subitamente, que mal entrávamos em casa, o meu pai dirigia-se imediatamente ao balcão da cozinha. Fui até lá.
Aquele balcão era a única coisa que dividia a minúscula cozinha da sala de estar à sua direita e sala de refeições à esquerda. Mal dei a volta, vi imediatamente as caixas da electricidade, água e gás, com a porta entreaberta.
Ao premir o botão, a luz acendeu-se como por magia por toda a casa. Mais confortável, fui buscar a minha bagagem e desligar o motor do carro, para em seguida voltar a entrar, fechando a porta atrás de mim.
Olhei em volta, estava tudo na mesma e dirigi-me ao quarto onde costumava ficar. Despejei a mala em cima da cama e comecei a arrumar a pouca roupa que trazia nas gavetas. Não sabia se ficaria muito tempo, mas aquele simples gesto, dava-me uma certa segurança, como se tudo estivesse dentro do normal. Depois de tudo arrumado, sentei-me sobre a antiga colcha de renda que cobria a cama. Sorri. Era estranho estar ali, mas… não era mau de todo.
Durante o resto do dia, distrai-me a tornar a casa habitável. Limpei, arrumei, vi cada cantinho, onde tinha brincado, dormido, vivido ao longo dos vários Verões que ali tinha passado. A meio da tarde fui até à vila comprar algumas mercearias, para que pudesse comer e quando voltei, dediquei-me a preparar um belo jantar.
Era raro cozinhar, é um dos defeitos que quem vive só, não tem vontade de fazer comer só para si, mas naquele dia, sentia-me estranhamente inspirada, talvez fosse a casa da minha infância, ou a presença dos meus pais que eu sentia por toda a parte. Quando o jantar finalmente ficou pronto, liguei a TV e sentei-me comodamente no sofá da sala, a comer. A televisão era antiga e havia uma série de interferências, pelo que acabei por desistir e desligá-la. No dia seguinte, talvez subisse ao telhado para ver o que se passava com a antena, mas àquela hora não.
Enquanto terminava a minha refeição ia lendo os títulos impressos na lombada dos livros da estante ao meu lado. A maior parte deles eram edições antigas e as letras douradas cravadas estavam um tanto desbotadas. Imaginei que quando tentasse folheá-los, acabassem por se desfazer nas minhas mãos, mas tinha de encontrar alguma coisa para fazer até à hora de dormir.
Estava a acabar de arrumar a cozinha, quando ouvi aquele ruído. Estaquei, estava no meio do nada, não podiam ser pessoas por perto, animais talvez… tinha a casa bem fechada, não tinha? Dei uma vista de olhos à porta, pelo sim pelo não, tranquei-a com duas voltas na chave e fechei todas as persianas de todas as janelas e sentei-me novamente no sofá florido. Só nesse momento, pude identificar o barulho que escutara, era o uivo do vento. Sorri perante a minha atitude ridícula. Peguei finalmente um livro e comecei a lê-lo, mas o barulho não abrandava.
“Será que está assim tanto vento?”
Estava tudo fechado e ele uivava como se estivesse a atravessar alguma fresta… Decidi investigar as janelas à procura de algum vidro partido. Não foi preciso, ao passar diante de uma porta, verifiquei imediatamente que o rosnar do vento vinha lá de dentro. Aquela divisão nunca era usada, nunca se abrira aquela porta, ao longo de todos aqueles anos que lá passáramos.
Lembrava-me do meu pai me ter dito uma vez que era uma espécie de despensa, sem nada de interessante, cheia de pó e teias de aranha. Perdera imediatamente a vontade de explorá-la, mas agora, tinha de lá entrar e tapar aquela maldita janela, ou não seria capaz de dormir a noite inteira.
Quando rodei a maçaneta, a porta estava trancada. Que estranho… fui então ao chaveiro principal onde várias pequenas chaves estavam penduras. Entre elas, uma destacava-se. Era uma chave antiga, enorme, de um material que talvez fosse bronze. Fitei-a, parecia de um portão, ou algo do género… Apesar da curiosidade, o uivo do vento estava cada vez pior, pelo que a deixei ali e peguei a que tinha escrito no porta-chaves “Arrecadação” e dirigi-me à porta fechada.
A chave abriu facilmente a fechadura enferrujada e empurrei a porta. Diante de mim, um quarto escuro e desorganizado, onde tudo parecia sujo e desarrumado, era sem dúvida uma arrecadação. A meio da parede oposta à porta, uma ampla janela fazia os cortinados esvoaçarem. Aproximei-me para fechá-la. Ao desviar os cortinados ondulantes, verifiquei que a mesma estava hermeticamente fechada. Não queria acreditar no que via. Engoli em seco e tentei verificar se existia alguma fenda ou abertura que permitisse ao vento passar, mas não encontrei nada.
Estava já a desesperar com o estranho fenómeno quando uma sombra me fez levantar o olhar. Soltei um grito de horror.
Do lado de fora da casa, um estranho, vestido de negro e de capuz na cabeça encarava-me. Nada conseguia ver no seu rosto, a não ser os seus olhos negros, fixos em mim. O meu coração disparou e senti as pernas fraquejarem. Dei um passo atrás, dizendo a mim mesma que a casa estava fechada. Onde teria deixado o telemóvel? Deveria ligar para o 112…
Sob os meus pés, o chão rugiu e em menos de um segundo, senti o ar a movimentar-se e uma dor insuportável. Ficou tudo negro.
Quando voltei a mim, sentia uma enorme dor de cabeça. Abri os olhos com dificuldade, o corpo todo doia. Apalpei meio a medo as pernas e os braços, não, não havia nada partido.
Olhei em volta, tinha caído para o andar de baixo. Eu nem sabia que havia andar de baixo. Ao meu redor, só via ligeiros contornos que não permitiam reconhecer os objetos que ali se encontravam. Levei a mão ao bolso traseiro das calças, tentando alcançar o telemóvel. Tudo o que encontrei, foram fragmentos, soltos e partidos.
– Isto está cada vez melhor…
Estar ali era quase tão assustador como estar lá fora, a pessoa que estava a observar-me podia a qualquer momento entrar na casa. Olhei para cima, pensando numa forma de alcançar a saída, mas estava demasiado alta. Voltei a fitar o aparelho partido na minha mão. O louco podia também ser a minha única hipótese de sair dali. Arrepiei-me com a ideia.
– O que foi que me deu na cabeça para vir até aqui?
Respirei fundo e tentei pensar claramente no que se estava a passar. Talvez à luz do dia, eu conseguisse arranjar uma forma de sair. Por toda a divisão, pareciam existir vários objectos grandes, se conseguisse arrastá-los para baixo do buraco, talvez conseguisse sair.
Então, a sala ficou ainda mais escura, se é que isso fosse possivel. Olhei em volta, tentando perceber o que estava a acontecer. Foi quando reparei na pequena janelinha, à altura da minha cabeça, era dali que vinha a réstia de luz e agora estava tapada com… Tapei a boca com a mão, de modo a não gritar. Do outro lado da janela duas botas pretas estavam paradas. Desviei-me do feixe de luz que entrava ainda por um dos lados e tentei observar. Não via nada, só as botas e as pernas. Tudo escuro. Quem quer que estivesse lá fora, continuava a observar. Bem, pelo menos, continuava lá fora.
O meu corpo continuava dorido e agora sentia frio. Por mais que olhasse à minha volta, não via onde dormir e pior, aquele sítio devia estar infestado do meu pior inimigo, aranhas. Só de pensar nisso, quase podia senti-las a circular por cima de mim…
– Pára, pára já com isso. Não há nada em cima de ti. – disse, baixinho.
Sentei-me no chão, o mais longe possível dos objetos ali guardados e abracei as pernas. Quanto tempo iria ficar ali? E o sujeito lá fora? Conseguiria entrar? As lágrimas começaram a escorrer-me pelo rosto, a uma velocidade estonteante.
Acordei na manhã seguinte com os raios de sol a beijar-me o rosto. Sentia o corpo enregelado e rígido e o suave calor no rosto sabia-me bem. Endireitei-me. Não tinha sido apenas um sonho, eu continuava numa cave, que sequer sabia que existia e sem maneira de sair dali. Respirei profunda e lentamente tentando acalmar-me um pouco. Eu tinha de encontrar uma forma de sair dali sozinha. Levantei-me com dificuldade e tentei movimentar o meu corpo dorido. À minha volta estavam os mais variados objectos meio tapados por panos brancos algo decompostos pelo tempo. Comecei então, devagar, a destapar os montes brancos que via. Milhares dos meus grandes inimigos começaram a fugir em todas as direcções. Esforcei-me por não gritar.
– São só aranhas. – murmurei.
Observei melhor os objectos que ali se encontravam. Dezenas, talvez centenas de livros empoeirados, com os títulos escritos numa língua que me era totalmente desconhecida. Os caracteres não se pareciam com nenhuma língua que eu conhecesse e no interior, as imagens eram confusas.
Passei ao segundo monte branco. Puxei o lençol e tive um ataque de tosse pelo pó que se espalhou pelo ar. Debaixo deste, uma mesa quadrada exibia aquilo que poderiam ser desenhos, ou palavras cravadas no tampo. Baixei-me um pouco mais para tentar observar. Pareciam os mesmos símbolos que estavam nos livros.
No outro canto da sala, um armário fechado. Com alguma dificuldade consegui abrir as portas de madeira apodrecida. Dentro do armário, vários frascos de diversos tamanhos. Observei com curiosidade. Alguns deles pareciam objectos usados num vulgar laboratório, outros estavam cheios de ervas e flores. Alguns continham líquidos que não pude identificar. Um arrepio percorreu a minha espinha. Seria aquela sala algum tipo de laboratório de droga? Mas qual o acesso? Eu não via nenhuma porta. No entanto, aquelas coisas tinham de ter entrado ali por algum lado…
Continuei a inspecionar a divisão e encontrei então uma arca, daquelas antigas, que me fez lembrar um filme que vira há muitos anos. Observei-a com atenção, continha as mesmas gravações que vira na mesa. Instintivamente, tentei abri-la, mas não consegui levantar a pesada tampa.
Verifiquei com mais atenção e uma enorme fechadura mantinha afastados, os olhares indiscretos. Forcei-a novamente. Nada. O que poderia haver ali de tão importante que precisasse de tão forte fechadura? Ao olhá-la novamente, percebi que reconhecia aquele formato de chave. Era a chave gigantesca que se encontrava no chaveiro da entrada. O que quer que fosse aquela divisão, os amigos dos meus pais estavam cientes da sua existência, o que me deixou com uma desagradável sensação de traição. Mas naquele momento, o que mais me preocupava era arranjar uma forma de sair dali e tendo em conta que não havia nenhuma porta à vista, a arca ou a mesa teriam de ser suficientes para que eu pudesse saltar para o andar de cima novamente.
A arca revelou-se demasiado pesada para ser arrastada, pelo que me decidi pela mesa. Coloquei debaixo do enorme buraco que se abrira no soalho e preparei-me para subir. Era quase um crime colocar os pés em cima daquele trabalho tão meticuloso, mas não era a hora nem o lugar para pensar em património. Subi para a mesa e verifiquei, que apesar de estar bem mais alta, não seria tão simples como tinha pensado, na verdade, era quase impossível sair dali.
Nesse momento, uma sombra debruçou-se sobre mim, fazendo-me gritar e cair desamparada da mesa abaixo. Olhei aterrorizada para o buraco no que era agora o meu tecto. Aquela figura assustadora estava ali debruçada sobre mim.
– Quem é você? – perguntei com a voz a falhar-me na garganta.
O desconhecido não disse uma palavra e esticou-me a sua mão. Fiquei parada no mesmo sítio a olhá-lo, durante vários minutos. Ele permaneceu imóvel de mão esticada na minha direcção.
Não sabia exactamente quem ele era, talvez pudesse ser algum tipo de psicopata, talvez um assassino, mas a verdade é que não tinha outra forma de sair dali, senão com a sua ajuda. A medo, voltei a subir à mesa e estiquei a minha mão. O homem agarrou-a com firmeza e puxou-me para fora do buraco.
Quando me vi novamente no rés-do-chão da casa, nem queria acreditar.
– Obrigada. – balbuciei por entre um sorriso. Por um breve momento, não pensei mais na possibilidade dele ser um serial killer, prestes a torturar-me até à morte. No entanto, passado o momento inicial, o medo voltou a esmagar-me os pulmões.
– O que o senhor faz aqui?
– Vi-te cair e pensei que precisavas de ajuda.
O estranho tratamento familiar, usando a segunda pessoa do singular, fez-me observar mais atentamente o seu rosto. Era um homem de meia idade, de cabelo grisalho e olhos claros. O rosto era vincado por rugas finíssimas em torno dos olhos e da boca. Aquela imagem não condizia em nada com a camisola de capuz que ele vestia.
– Eu caí ontem à noite.
– Tinhas a porta trancada, não foi fácil entrar na casa. Espero não ter feito muitos estragos.
Dei uma olhadela rápida à porta da rua. Arrombada.
“Boa… Ainda vou ter de pagar pelo arranjo.”
Quando voltei a olhá-lo, ele fixava-me intensamente.
– Este não é um sítio turístico, nem tem outras casas à volta. O que o senhor estava a fazer aqui?
– Há anos que venho aqui. – respondeu, enquanto caminhava na direcção da sala. – Sempre à espera, mas….
– A casa está fechada há muito tempo…
Ele olhou-me e o seu olhar era gélido.
– Desde que a tua mãe morreu. – Senti um arrepio entranhar-se nos ossos.
– O senhor conhecia a minha mãe?
– Conheci. – declarou num tom pouco amistoso. – E ela ficou com algo que era meu. Eu quero-o de volta.
Senti a minha boca abrir-se de espanto.
– A minha mãe tinha algo que era seu?
– Sim, eu emprestei-lhe há muito tempo atrás. E ela morreu antes de mo devolver.
– Eu não faço ideia do que está a falar.
– Não mintas. Eu sinto a sua energia em ti.
– A energia da minha mãe?
– Não! – gritou, fazendo-me sobressaltar. – A energia do anel.
Instintivamente levei a mão ao pescoço. O anel da minha mãe. Era a isso que ele se referia? Para meu desespero, não encontrei o fio no qual ele estava pendurado.
– O anel… eu perdi!
O homem olhou-me.
– A minha mãe deu-me um anel e disse que deveria cuidar dele com carinho, e nunca o perder. E eu perdi! Não está mais aqui!
– Não! Não depois de todos estes anos! – rosnou.
Olhei-o estupefacta.
– Que tem esse anel de tanta importância?
Num piscar de olhos, senti a sua mão em redor do meu braço, apertando-o firmemente.
– Encontra-o. Tens de encontrá-lo!
– Calma! – pedi assustada, no entanto, o seu olhar era aterradoramente gélido e sem qualquer ponta de carinho ou compaixão.
– Talvez tenha caído na queda.
Eu olhei-o.
– Se me disser o que tem de tão importante, eu posso procurá-lo.
Sem que eu tivesse tempo para o menor raciocínio, estava pendurada sobre o enorme buraco para a cave, presa apenas pela fragilidade da minha camisola de lã.
– Se eu te atirar lá para baixo, também podes.
Não me apetecia cair novamente daquela altura, pelo que lhe pedi que não o fizesse. Prometia procurá-lo. Voltou a puxar-me agressivamente para dentro de casa e em seguida soltou-me, saindo pela porta arrombada.
Respirei fundo e dirigi-me à mesma. O estrago era grande e era impossível voltar a fechá-la. Eu sabia que de uma forma ou de outra, ele iria voltar, mas não me sentia minimamente confortável em ficar ali, naquela casa vazia, no ermo do campo, com a porta irremediavelmente aberta.
Não havia muito que eu pudesse fazer, pelo que me limitei a ir buscar um dos velhos sofás e colocá-lo atrás da porta. Em seguida, sentei-me no banco da cozinha. Não havia grandes hipóteses, eu tinha a certeza absoluta que o anel encontrava-se ao meu pescoço quando entrara na casa. Então, tinha de ali estar.
Voltei ao lugar da queda e espreitei para baixo. Era impossível vê-lo dali, mas era o sítio mais provável para ele estar. Só não sabia como iria descer até ali, sem partir nenhum osso. Fui até à despensa da casa e peguei o mais alto dos escadotes que lá se encontravam, em seguida, deitei-me no chão, junto ao buraco e tentei abri-lo abaixo de mim. Não foi fácil, mas consegui colocá-lo de pé. Estava a uma distância de cerca de um metro do chão abatido, talvez conseguisse ir até lá. Apanhei a grande chave antiga no chaveiro e com todo o cuidado, voltei a descer à divisão secreta.
Desta vez, não me esquecera da lanterna, que me ajudava a ter uma melhor imagem daquilo que se encontrava à minha volta. Fitei cada um dos estranhos objectos novamente, a mesa era a mais espetacular. Encontrei ainda um velho piano, cujo som arrepiava de tão desafinado que estava. Então, dirigi-me à velha arca.
Quando a abri, deparei-me com muitos papéis soltos, cadernos e livros de aspecto tão antigo que quase tive medo de lhes tocar. Pareciam desfazer-se ao mais leve toque. Foi então que reparei, atrás da arca encontrava-se uma escada de madeira, que parecia não dar a lado nenhum. Apontei a lanterna e subi-a. Nada. No final, apenas uma rija parede de cimento.
Voltei a descer, era ridículo. Talvez aquela sala tivesse sim uma saída, mas alguém a tinha fechado. Porquê?
Sem querer acreditar no que tinha diante dos olhos, um reflexo brilhante no chão chamou a minha atenção. Ao aproximar-me, verifiquei que era o meu anel, brilhava como se tivesse algum tipo de luz interior, parecia magia. Apanhei-o do chão e coloquei-o no dedo, sentindo um calor intenso, que me sobressaltou. Fitei o meu dedo, o anel parecia o mesmo, mas ao mesmo tempo, algo nele estava diferente.
Voltei a subir o escadote e sentei-me no sofá na sala. Recostei-me confortavelmente nele e acabei por adormecer.
Acordei algumas horas depois, sobressaltada com as fortes pancadas na porta da rua. Assustada, encolhi-me no sofá.
– Quem é?
Pergunta idiota, eu sabia muito bem que era ele novamente, à procura do anel. Levantei-me sentindo o meu corpo a tremer e dirigi-me à porta, de onde desviei o sofá que lá havia colocado pela manhã. A porta abriu-se lentamente, como num filme de terror. Do lado de fora, o homem vestido de negro e com olhar duro e frio estava parado.
– Encontraste-o.
Não era uma questão, o grande anel estava ostensivamente no meu dedo e segundo ele, podia sentir a sua energia.
– Encontrei. Agora diga-me, qual a importância dele.
O homem voltou a sair em silêncio e eu segui-o, sem saber muito bem para onde iríamos. Caminhou sem dizer uma palavra, rodeando a casa. Quando nos encontrávamos nas traseiras apontou para a parede. Olhei-o desconfiada e aproximei-me. Passara ali o Verão durante vários anos e nunca tinha reparado naquele pequeno defeito na parede.
Endireitei-me e olhei na sua direcção. Ainda sem emitir um som, tirou o anel da minha mão e colocou-o na parede. Cabia na perfeição. Então, diante dos meus olhos, uma porta surgiu no meio da parede caiada. Não queria acreditar e toquei levemente no objecto que se formava magicamente. Era uma porta de verdade…
O homem sorriu pela primeira vez desde que o vira e rodou a maçaneta, para logo em seguida, fazer-me sinal para que entrasse à sua frente. Em passos inseguros entrei pela porta aberta e diante de mim tinha a estranha e misteriosa cave onde havia caído no dia anterior. Olhei para ele, as escadas que pareciam não dar a lado nenhum, eram afinal a saída pela porta mágica.
– Não achavas que toda a gente caía do tecto , pois não? – Senti o meu sobrolho franzir-se.
– É isso então? O anel é a chave?
Ele acenou levemente com a cabeça. Voltei a caminhar por ali, como se fosse a primeira vez, passei a mão levemente sobre cada uma daquelas coisas.
– Afinal o que é tudo isto?
– Aqui, está enterrado o segredo da felicidade e da vida.
– O segredo da vida? Espere aí, esta casa pertencia a uns amigos da minha mãe que…
– Tu nunca viste.
Fiquei sem resposta. Mordi o lábio inferior, sem saber como ripostar.
– Era você… – dei por mim a afirmar, num tom ligeiramente interrogativo.
O seu olhar frio e fixo em mim foi resposta suficiente.
– Mas então, porque vínhamos aqui? A minha mãe sabia da existência deste local?
– A tua mãe vinha até aqui para usar esta mesma mesa de encantamento, estes livros velhos, cheios de feitiços poderosos.
Sustive o riso. Depois da brincadeira da porta, eu sabia que a magia era real, mas imaginar a minha mãe a mexer em tal coisa. Ele não pareceu notar o turbilhão de pensamentos que invadiu.
– Dei-lhe a chave para ter aquilo que desejava, mas ela desejou demais.
– O poder…
– O poder vem do anel e aqui – fez um gesto amplo com a mão indicando toda a sala – aprendes a usá-lo.
– E a minha mãe aprendeu… como?
Ele ficou imóvel e em silêncio, a olhar-me directamente.
– Se ela tinha tanto poder, porque morreu de forma tão estúpida?
– Porque tudo na vida não passa de um teste. A magia pode melhorar a tua vida, ou torná-la numa maldição. É o teu coração que escolhe.
– O coração da minha mãe era puro.
– Não, os humanos não têm coração puro. Ela não tinha, tu não tens… E o poder traz à superfície o que de pior há em nós.
– O que foi que ela fez de errado?
O seu rosto tornou-se subitamente muito velho e cansado. O tom de pele amarelado e as enormes olheiras debaixo dos olhos, quase me fizeram sentir piedade daquele estranho homem à minha frente.
– Ela quis demasiado, exigiu demasiado, fez demasiado. Não soube usufruir da dádiva que lhe foi dada e transformou-a numa maldição.
Olhei em volta, aquela história era estranha, mas ao mesmo tempo, imaginar ter assim tanto poder…
O homem aproximou-se e pegou na minha mão. As suas estavam geladas e fizeram-me estremecer.
– Ela não soube canalizar o bem.
A esta altura, sentia-me incapaz de desviar os meus olhos dos dele.
– E tu, saberás?
Fitei o anel novamente e um sopro agitou os meus cabelos, dando-me um arrepio. Quando ergui os olhos, o homem tinha desaparecido. O brilhante anel queimava na palma da minha mão. Saberia?
FIM

 

Para lerem mais alguns contos da minha autoria, basta visitar o meu blog Pincel e Pena e abrirem a Label (Etiqueta) Contos.

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